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Alimentos Orgânicos

10/09/2019 10:09:14

A segunda guerra mundial transformou o mundo além das consequências diretas da destruição causada pela própria guerra em si. Os avanços tecnológicos da indústria, decorrentes das necessidades de desenvolvimento de armas, causou uma aceleração exacerbada dos processos industriais em diversas áreas. Não foi diferente na indústria alimentícia. 


O momento decisivo na industrialização dos alimentos ocorreu em 1947, quando uma fábrica de munição no Alabama foi adaptada para começar a produzir fertilizantes químicos. Depois da guerra, havia um enorme excedente de nitrato de amônio, o principal ingrediente para a fabricação de explosivos, mas também uma excelente fonte de nitrogênio para plantas. A indústria de fertilizantes químicos (juntamente com a de pesticidas, derivados de gases venenosos desenvolvidos para a guerra) é o produto do esforço dos governos para adaptar sua máquina de guerra para fins pacíficos. A agricultora ativista indiana, Vandana Shiva, diz que "ainda estamos comendo as sobras da Segunda Guerra".


NO LIMITE DO DESENVOLVIMENTO

Se não fosse pelo nitrogênio sintético, a população humana logo estaria no seu limite de desenvolvimento por falta de comida para alimentar todas as pessoas do planeta. O professor da Universidade de Manitoba, Canadá, Vaclav Smil, que escreveu o livro Enriching the Earth, que poderia ser traduzido livremente como “Enriquecendo a Terra”, afirma que, pela sua estimativa, dois em cada cinco seres humanos não estariam vivos se o homem não tivesse descoberto os fertilizantes sintéticos. Sem eles, bilhões de pessoas nem sequer nasceriam. Mas ao mesmo tempo, podemos ter firmado, metaforicamente falando, um pacto com o diabo. 

Podemos afirmar isso, pois apesar de naquele momento a descoberta dos fertilizantes químicos ter solucionado o problema da fome mundial, menos de um século se passou desde que o homem descobriu como produzir nitrogênio, e mesmo assim, ele já mudou a ecologia da Terra. A menos que tenhamos sido alimentados desde a infância com alimentos orgânicos, mais da metade do nitrogênio que temos no corpo foi produzido artificialmente. Ao fertilizar o mundo, alteramos a composição das espécies do planeta e as consequências futuras são difíceis de se prever. 

 Sempre que um excesso de matéria orgânica surge em qualquer parte da natureza, criaturas grandes e pequenas inevitavelmente se apresentam para consumi-la, criando às vezes novas cadeias alimentares ao longo do processo. Esses fenômenos, aparentemente desvinculados, estão relacionados ao excesso de biomassa: do desaparecimento da agricultura familiar à ascensão dos grandes conglomerados do agronegócio, da industrialização da comida à epidemia de obesidade, da intoxicação alimentar às doenças crônicas. Algo que começou bem, como para resolver o problema da fome, está levando a população da Terra ao adoecimento e morte.


O MOVIMENTO ORGÂNICO

O movimento orgânico nasce da tentativa de reverter esse quadro. Orgânico é o termo designado para os processos agrícolas usados na produção de alimentos. Quase todos os alimentos podem ser produzidos organicamente: grãos, carne, laticínios, ovos, fibras, flores e, inclusive, produtos processados. Antes de ser certificado como orgânico, há rigorosa inspeção em todas as etapas de sua produção. Nessas etapas, os agrotóxicos e produtos químicos danosos são eliminados do processo e apenas métodos culturais, biológicos e mecânicos são aceitos. Na produção de orgânicos, por exemplo, são utilizados adubos naturais: pó de rochas, farelos de algodão e mamona, palha curtida, conchas moídas etc., em vez de adubos químicos: ureia, amônia, cloreto de potássio, superfosfato duplo etc., que contaminam o solo e os rios. 

Os produtos orgânicos estão livres de derivados de petróleo, como pesticidas e fertilizantes, de resíduos transgênicos ou radiação ionizante. Não existem resíduos de antibióticos ou hormônios promotores do crescimento na carne orgânica de animais ou aves, nos ovos e laticínios. 

A produção orgânica tem uma abrangência ainda maior. Foi a Organização para Alimentos e Agricultura da ONU que definiu, em 1999, que a agricultura orgânica é um sistema de produção de alimentos que promove e melhora o ecossistema agrícola e fomenta a biodiversidade e a atividade biológica do solo por meio de práticas adaptadas às condições regionais. Quando consumimos orgânicos, estamos protegendo o meio ambiente, a qualidade de vida e nossa saúde. 

A importância do movimento orgânico pode ser mais bem avaliada quando sabemos que a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos considera que 60% dos herbicidas, 90% dos fungicidas e 30% dos inseticidas são carcinogênicos, isto é, induzem ao câncer. Isto é algo que pode acontecer em qualquer tecido e em qualquer órgão, desde que sofram a ação de algum agente carcinogênico que danifique seu DNA ou genes. 

Além disso, a exposição humana aos pesticidas acarreta uma série de disfunções no organismo, incluindo neurotoxicidade, desequilíbrio hormonal e supressão do sistema imunológico e afeta a reprodução nos homens e induz a abortos nas mulheres. 

Como se não bastasse, os produtos convencionais possuem menos nutrientes do que os seus similares orgânicos. Estudo publicado na Revista de Nutrição Aplicada mostrou que os alimentos orgânicos eram mais nutritivos e apresentaram, em média, 63% mais cálcio, 73% mais ferro, 118% mais magnésio, 178% mais molibdênio, 91% mais fósforo, 125% mais potássio e 60% mais zinco, comparados com os similares não orgânicos. Em contrapartida, apresentaram 29% menos do tóxico mercúrio, em média. 

Artigo publicado, em fevereiro de 2003, no Journal of Agricultural and Food, confirmou que milho e morango orgânicos têm níveis significativamente mais altos de antioxidantes combatentes do câncer e é fácil entender o porquê. Muitos desses protetores, principalmente flavonoides, são produzidos pela própria planta em resposta ao estresse ambiental, provocado pelos predadores e outras plantas competindo por água e nutrientes do solo. São protetores naturais das plantas e possuem também propriedades protetoras da saúde de quem os come. Os agrotóxicos e herbicidas interrompem a produção desses componentes.


A PRODUÇÃO INDUSTRIAL DE ALIMENTOS

Devemos compreender que processar alimentos é uma estratégia eficaz para fazer com que as pessoas comam mais. Começamos a processar a comida para tentar impedir que a natureza a tomasse de volta. Aprendemos a salgar e a secar, a defumar e a manter em conserva na primeira era dos alimentos processados. Depois, aprendemos a enlatar e a embalar a vácuo, tudo isso na tentativa de libertar as pessoas da tirania do calendário e dos ciclos naturais de abundância e escassez. Na nova era do processamento, preservar os frutos da natureza parece um propósito demasiado modesto: o objetivo agora é aprimorar a natureza. A tecnologia encontrou a comodidade. Com isso, a margarina substituiu a manteiga, as bebidas à base de fruta se transformaram nos sucos de fruta, para em seguida chegarmos às bebidas totalmente desprovidas de frutas. 

Esse é o verdadeiro poder da engenharia de alimentos: sua capacidade de quebrar os alimentos até chegar aos seus nutrientes e então rearrumá-los de maneiras específicas, mas sempre ludibriando nosso sistema de seleção de alimentos. Ao acrescentar açúcar e gordura a qualquer coisa o seu sabor vai melhorar na língua de qualquer animal que a seleção natural programou para buscar alimentos com alta densidade de energia.

Os alimentos processados nos enganam ao exagerarem sua densidade de energia e representam encrenca na certa. O diabete tipo II ocorre, por exemplo, quando o mecanismo do corpo, para administrar a glicose, simplesmente se desgasta devido ao seu uso excessivo. Diabete e obesidade é o que podemos esperar num mamífero cujo ambiente teve seu metabolismo bombardeado com alimentos que contêm alta densidade de energia. 

Um fato histórico interessante que comprova essa realidade é que essas duas doenças aumentaram sua prevalência na população depois que o preço do açúcar e da gordura despencou desde os anos 1970. A cadeia industrial alimentar tornou os alimentos com alta densidade de energia uma das comidas mais baratas do mercado. Um dólar pode comprar 1.200 calorias de batatas fritas e biscoitos e apenas 250 calorias de uma cenoura. Na sessão de bebidas é possível comprar 875 calorias em refrigerantes, em vez de 170 calorias de suco de frutas. Em termos econômicos, faz todo sentido que pessoas com menos recursos financeiros, para comprar comida, prefiram gastá-los com as calorias mais baratas que puderem encontrar. Toda vez que um governo assina leis de política agrícola para milho e soja, garante que as calorias mais baratas no supermercado continuem a ser também as menos saudáveis.


COMA COMO SEUS AVÓS

Nosso organismo se desenvolveu e se aperfeiçoou durante milhões de anos com alimentos naturais e por isso é possível afirmar que nosso sistema digestivo está adaptado às fontes ancestrais de alimento. 

Em contraste, os produtos alimentícios estão carregados de substâncias que são completamente alheias à nossa herança evolutiva. A era moderna nos deu uma quantidade impressionante de alimentos, mas nós realmente não melhoramos sua qualidade. Encontramos meios de manter o alimento fresco durante períodos mais longos e, em alguns casos, adicionamos alguns ingredientes que ajudam a aliviar algumas deficiências nutricionais. Mas, na maioria dos casos, os alimentos não são melhores agora do que há cem anos. Essa é a regra: coma do jeito antigo, evite os novos hábitos alimentares.

Algo mudou substancialmente no século 20: a produção e o processamento dos alimentos se tornaram industrializados e milhares de produtos alimentícios foram criados. Quatro acontecimentos mudaram toda a história: a invenção da hidrogenação das gorduras; a melhora no processo de refino (beneficiamento) dos grãos e cereais, a criação do xarope de frutose de milho e do glutamato monossódico. Estes são os principais ingredientes de todo produto alimentício, os principais responsáveis por nosso apocalipse metabólico e pela maior parte das doenças do mundo moderno. Por isso afirmo: aprenda a comer; comece distinguindo alimento de produto alimentício.  

É fácil perceber a diferença. Imagine algumas castanhas, aspargos, brócolis; agora pense numa barra de cereais, num shake para emagrecer, num cereal de caixinha. O alimento parece biológico, um tecido vivo, algo que você talvez veja ao ar livre, num ambiente natural. Os produtos alimentícios não se parecem com nada, mas nem sempre é fácil distinguir entre um e outro. O milho em lata, o salmão criado em cativeiro, o leite pasteurizado são alimentos ou produtos alimentícios? 

Os fabricantes de alimentos descobriram que estampar o termo “natural” em seus produtos resulta em aumento das vendas. Os consumidores estão buscando, cada vez mais, alimentos saudáveis, e são presas fáceis para as armadilhas mercadológicas. 

Não há uma legislação específica para regular o que quer dizer “natural”. Por exemplo, alimentos fritos em alta temperatura, que resultam na formação de um potente cancerígeno, a acrilamida, podem receber a marca de “natural” na embalagem. Além do processo de fritar ter sido inventado pelo homem, a esses alimentos é adicionado sal e vários aditivos químicos; dentre estes, o mais perigoso é, de longe, o glutamato monossódico. Mesmo assim, para evitar a rejeição dos consumidores esclarecidos, os fabricantes escondem o glutamato em inocentes nomes, como por exemplo, proteína hidrolisada. Assim, um produto “natural” pode conter pesticidas, herbicidas, metais tóxicos, vitaminas sintéticas, glutamato monossódico e ser cozido em altas temperaturas. A tarefa de escolher o que comer não é tão fácil.

Usar a intuição e a observação pode ajudá-lo nessa tarefa. Se estiver em bancadas e espalhados em grandes caixas no supermercado, provavelmente é alimento. Os produtos alimentícios têm geralmente belo design, quase sempre são perfeitamente empacotados e organizados em prateleiras. Se o seu carrinho de compras contém um monte de caixas de papelão, você acaba de comprar uma pilha de produtos alimentícios. Um biscoito “orgânico” não é melhor do que uma cenoura fresca. Um pacote contendo uma refeição pronta “orgânica” nunca substituirá uma com alimentos frescos e integrais. 

Numa sociedade capitalista, precisamos refletir, questionar: as companhias alimentícias estão preocupadas com o retorno financeiro dos seus produtos ou com nossa saúde?

Alimentos são caros. Sua produção raramente traz lucros para quem os cultiva, mas os lucros das empresas alimentícias, mesmo quando seus produtos são aparentemente mais baratos, são obscenos. Quando alguém propagandeia que um determinado produto é saudável (ou teve adicionada uma substância saudável), provavelmente não o é. Isso nos leva a outra regra: se é anunciado, provavelmente é um produto alimentício.

Nossa proposta é resgatar o elo perdido da alimentação saudável pela reeducação. Ao comprar um alimento, analise se ele é local, ético, sustentável, humano. Bom apetite!


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