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Um corpo que se cura.

01/12/2017 15:34:27

Ainda considerado por muitos como uma melhora ilusória, o efeito placebo é uma prova do poder da mente sobre o organismo e um sinal de que há mais coisas entre o remédio e a cura do que a medicina tradicional é capaz de explicar.


No final da década de 1950, o cardiologista Leonard Cobb realizou uma pesquisa inusitada com pacientes que sofriam de angina. A dor no peito sinaliza um coração enfraquecido, e um tratamento comum à época consistia em atar nós em duas artérias para aumentar o fluxo sanguíneo no órgão. Cobb ficou intrigado com o mecanismo que aliviava a dor em 90% dos pacientes. Ele, então, submeteu um grupo com angina a um teste: realizou incisões, mas não atou as artérias. Como mágica, sem que o médico tocasse em qualquer artéria ou coração, a dor desapareceu.


O caso, recuperado pela jornalista Margaret Talbot em um artigo para o jornal The New York Times, foi um marco inicial da pesquisa científica sobre as cirurgias placebo. Graças à pesquisa de Cobb, o procedimento cardiológico conhecido como ligadura da artéria mamária caiu em desuso. Ganhava corpo na medicina o conhecimento acerca da resposta placebo e a noção de que nem todo tratamento medicamentoso ou cirúrgico funciona por mérito próprio: a mente humana é tão capaz de curar um corpo doente quanto de adoecer um corpo saudável. “Não é por acaso que a medicina procura estabelecer uma mente sã em um corpo igualmente são”, aponta o médico Norberto Cysne Coimbra, professor de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (USP).


Até o início do século 20, o conhecimento químico sobre a maioria dos medicamentos utilizados não bastava para esclarecer seu funcionamento. A principal exceção eram remédios contra a dor, como a morfina e outros opiáceos. Descobertas como a de Leonard Cobb nos anos 1950 e 1960 não apenas escancararam a existência do efeito placebo como reconfiguraram a maneira de se fazer pesquisa. Desde então, estudos em ciências biológicas e da saúde esforçam-se em discernir efeitos específicos de substâncias de possíveis respostas placebo, por meio de ensaios clínicos randomizados, duplos-cegos e placebos-controlados — quer dizer, separando os pacientes pesquisados aleatoriamente em dois grupos, um deles submetido ao tratamento real, outro ao inerte, e comparando as respostas positivas nas duas amostras. 


Por conta desses estudos, hoje sabemos que, em quadros como dor e depressão, o placebo pode ser um remédio tão eficaz quanto boa parte dos fármacos mais recomendados. Em depressões psiquiátricas, estima-se que o efeito placebo seja responsável por 30% a 50% da melhora relatada por pacientes. Em quadros agudos de dor, 55% dos pacientes que já tenham tomado analgésicos respondem tão bem ao ópio quanto a cápsulas de farinha. Podem estar incluídos nessas estatísticas aquele vizinho viciado em ansiolíticos e a tia-avó que toma relaxante muscular diariamente. “O efeito placebo dá-se tanto em relação a doenças somáticas como em relação a doenças mentais”, afirma o médico Coimbra, que aponta como motivo principal para a observação do efeito a crença dos pacientes na eficácia de tratamentos inócuos.


Há, no entanto, um entendimento cada vez mais completo — e complexo — de como o efeito placebo é produzido, e do quanto ele revela sobre a relação íntima entre a mente e o funcionamento do organismo.


PLACEBO AMIGO


A resposta placebo é a melhoria dos sintomas ou das funções fisiológicas do organismo em reação a fatores como sugestão verbal, cápsulas inertes ou cirurgias fictícias. Sabe-se que, de modo geral, um fator crucial é o sugestionamento, a combinação da convicção do terapeuta com a expectativa otimista do doente e a legitimidade do tratamento no contexto cultural em que a pessoa doente está inserida. Pelo mesmo mecanismo, mas em sentido oposto, ocorre a resposta nocebo. Pessoas submetidas a cirurgias convictas de que não vão sobreviver são mais propensas a complicações pós-operatórias.


O efeito placebo-nocebo pode ser considerado inespecífico porque não deriva da ação de uma substância sobre o organismo, mas não é falso ou ilusório. Muitos médicos acreditam que ele possa ser um aliado — e não um ruído — no processo de cura. Para esses especialistas, a resposta placebo surge como um argumento a favor do resgate de uma relação mais próxima entre médico e paciente.


O médico e pesquisador homeopata Marcus Zulian Teixeira lembra que o ato de ouvir e examinar cuidadosamente o indivíduo era parte fundamental do exercício médico até meados do século passado. Em uma revisão científica publicada na Revista da Associação Médica Brasileira, Teixeira recomenda o resgate dessa relação humanizada a partir de casos clínicos de efeito placebo. A partir da revisão de dezenas de estudos sobre analgesia por placebo, Teixeira aponta que o mecanismo que modula a resposta placebo no organismo (que provoca o alívio da dor em quem não tomou remédio) provavelmente advém da combinação de condicionamento e expectativa — duas explicações clássicas para a resposta placebo. 


O condicionamento ocorre quando a associação repetitiva entre um tratamento inócuo e um efetivo acaba por dispensar o uso do segundo. Combinar sugestões sensórias, como a forma e cor de comprimidos de farinha, com intervenções efetivas, como a administração de morfina, acabaria por dispensar o uso da substância ativa para a obtenção do mesmo resultado. É o que se verificou em um estudo com crianças portadoras de lúpus eritematoso (doença inflamatória crônica em que o sistema imune produz células que atacam o organismo). Após um período curto de uso de medicamento associado a estímulos do olfato e do paladar, suprimiu-se a atuação danosa do sistema imune por 12 meses apenas com placebo.


Já o mecanismo da expectativa consciente trata do sugestionamento de que falamos anteriormente. Estudos apontam que, quando o médico revela detalhes da terapia indicada, há uma diferença positiva importante no desfecho do tratamento em comparação aos casos em que o tratamento é receitado sem tanto entusiasmo. Segundo Teixeira, é a soma dos mecanismos que torna a resposta placebo efetiva. Com avanços na biologia celular e molecular e novos campos de estudo da medicina, tem sido possível elucidar, pelo menos em parte, por que o organismo se deixa levar pelo que se passa na cabeça do paciente.


MENTE SÃ, SISTEMA IMUNE SÃO


Parte dos mecanismos neurofisiológicos da resposta placebo têm sido descritos nas últimas décadas, sobretudo por pesquisas em um campo que traz revelações impressionantes sobre a relação entre mente e corpo: a psico-neuro-endócrino-imunologia (PNEI). “É um ramo da neurociência que estuda a integração entre o sistema nervoso, o sistema endócrino e o sistema imune, os quais se inter-relacionam. Alterações psíquicas influenciam o eixo hipotálamo-hipofisário (sistema que produz e distribui hormônios), culminando em alterações na liberação de hormônios que alteram o funcionamento do organismo”, explica Norberto Cysne Coimbra, da USP.


Um pesquisador seminal no campo da PNEI foi J. Edwin Blalock, professor do departamento de neurobiologia da Universidade do Alabama que, em 1984, publicou a pesquisa O sistema imune como sexto sentido. Blalock apontava evidências da interação entre sistema imune, sistema nervoso central (SNC) e sistema endócrino, como o fato de doenças infecciosas e cancerígenas desencadearem alterações psicológicas, os hormônios do estresse (cortisol e adenalida) impactarem a imunidade, e doenças psicoemocionais como a depressão e a esquizofrenia estarem associadas a anormalidades imunológicas.


O que ocorre com o estresse é exemplar. Nos quadros de estresse, há um aumento do hormônio cortisol. Quando o estresse se torna crônico, a saturação de cortisol no organismo pode inibir respostas imunológicas do corpo, tornando-o vulnerável a doenças inflamatórias, alérgicas e virais. “O estresse e a depressão podem favorecer doenças infecciosas diversas, inclusive as neoplasias (cânceres), devido à indução de uma depressão imunológica e diminuição das defesas naturais do organismo a patógenos e à proliferação de células cancerígenas, quando houver predisposição genética ou indução por carcinogênicos diversos”, exemplifica Norberto Cysne Coimbra.


Há indícios de que a adoção de técnicas de relaxamento psíquico em tratamento de câncer, por exemplo, contribui para o aumento dos glóbulos brancos responsáveis pelo combate a infecções viral e células cancerosas. A relação entre estresse e imunidade dá sustentação a inúmeras terapias integradas complementares aos tratamentos convencionais.


O mecanismo placebo contra a dor é parcialmente conhecido. O corpo produz hormônios opioides chamados endorfinas, que têm potente ação analgésica. O médico Marcus Zulian Teixeira elenca experimentos que confirmaram que as endorfinas podem ser liberadas a partir da expectativa condicionante, da crença do paciente na diminuição da dor. Produzida na glândula hipófise, a endorfina é responsável por parte da resposta placebo analgésica e atua nas mesmas regiões do SNC que a morfina. Pesquisadores confirmaram o mecanismo quando administraram substâncias conhecidas por anular o efeito da morfina e notaram que o efeito placebo também deixava de ocorrer.


A PNEI tem evidenciado que a influência se dá nos dois sentidos: o estado emocional impacta o equilíbrio orgânico do mesmo modo que perturbações no organismo podem levar a quadros de estresse e de depressão. Ainda assim, trata-se de um campo de estudos constituído como tal há pouco mais de uma década. Quer dizer: embora a PNEI aponte novos caminhos para o entendimento da resposta placebo e do impacto da mente sobre a saúde do corpo, o que conhecemos até agora é a ponta de um iceberg que, nos próximos anos, deve emergir e revelar novos contornos.


SAIBA O QUE É MITO OU VERDADE SOBRE O EFEITO PLACEBO


  • O EFEITO PLACEBO É ILUSÓRIO E NÃO BENEFICIA O PACIENTE

Mito. Estima-se que o efeito placebo seja responsável por parte considerável da melhora de pacientes com diferentes patologias. No caso das depressões, de 30% a 50% da melhor obtida se deve ao efeito placebo, e não propriamente às drogas administradas. O mecanismo pelo qual opera a resposta placebo explica, também, por que o atendimento médico mais atencioso obtém resultados superiores em relação à medicina mecanicista e impessoal.


  • O EFEITO PLACEBO É PSICOLÓGICO

Mito. Campos como a psico-neuro-endócrino-imunologia têm mostrado que a resposta placebo está intimamente ligada à interação entre os sistemas imune, endócrino e nervoso central. A expectativa do paciente quanto a um tratamento, por exemplo, pode levar à liberação de hormônios que, por sua vez, influenciam na resposta imune do corpo. Ou seja: o estado emocional pode tanto auxiliar no processo de cura quanto levar ao adoecimento.


  • O EFEITO PLACEBO MOSTRA QUE O CORPO SE CURA SOZINHO

Parcialmente verdade. Embora haja indícios de que algumas enfermidades podem ser eliminadas com mudanças ambientais, no estilo de vida e em hábitos alimentares, ainda não se conhece a fundo o mecanismo pelo qual isso ocorre. Sabe-se que alguns quadros, sobretudo de dor e emocionais, são mais suscetíveis à resposta placebo.


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