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Suplementação dietética com cogumelos Agaricales e outros fungos na terapia contra o câncer.

16/10/2017 16:44:39

Efeitos da suplementação dietética com cogumelos Agaricales e outros fungos medicinais na terapia contra o câncer.

Os cogumelos Agaricales têm sido utilizados, durante milênios, devido aos seus componentes biologicamente ativos que exercem efeitos nutricionais, medicinais e farmacológicos imprescindíveis para os portadores de diversos tipos de câncer. O objetivo deste estudo foi revisar os artigos indexados nas bases de dados Medline, Lilacs, NCBI, Capes, Scielo e Cochrane, que avaliaram os efeitos da suplementação dietética com cogumelos Agaricales e outros fungos medicinais na terapia contra o câncer.


Palavras-Chave: Agaricales, Cogumelos medicinais, Neoplasias, Suplementação dietética.


INTRODUÇÃO

 

O câncer, resultado do acúmulo de mutações sequenciais múltiplas e alterações moleculares que culminam com metástases1, é a segunda principal causa de mortalidade no Brasil2. Na França, o câncer é a maior causa de óbitos em homens e mulheres, entre 35 a 64 anos, sendo responsável por cerca de 150 mil mortes por ano3. Nos Estados Unidos, estatísticas sugerem que, aproximadamente, 30% dos norte-americanos desenvolverão câncer durante toda a vida, sendo que, destes, dois terços morrerão em virtude dessa doença4.

 

Estimativas para o ano de 2006 indicam que ocorrerão, no Brasil, 472.050 casos novos de câncer, esperando-se 234.570 casos novos para o sexo masculino e 237.480 para o sexo feminino. Dados estatísticos apontam que o câncer de pele não-melanoma será o mais incidente na população brasileira (116 mil casos novos), seguido pelos tumores da mama (49 mil), próstata (47 mil), pulmão (27 mil), colorretal (25 mil), gástrico (23 mil) e colo do útero (19 mil)5.

 

O desenvolvimento do câncer resulta da interação entre fatores endógenos e ambientais6. Cerca de 35% dos diversos tipos de câncer ocorrem em decorrência de dietas inadequadas7, caracterizadas pelo alto teor de gordura saturada, colesterol e açúcares e baixo aporte de verduras, frutas, legumes e cereais integrais8. Tabagismo, obesidade, pouca atividade física, exposição a determinados tipos de vírus, bactérias, parasitas, além do contato frequente com substâncias carcinogênicas também merecem ser destacados7.

 

Os tumores malignos, particularmente aqueles cujo crescimento é lento, levam maior tempo para serem diagnosticados, promovendo, consequentemente, alterações catabólicas extenuantes no hospedeiro, culminando com a caquexia8.

 

A caquexia, desnutrição em portadores de câncer, apresenta uma incidência entre 30 e 50% dos casos, podendo estar associada ao aumento da morbimortalidade pós-operatória e menor tolerância aos procedimentos quimioterápicos, radioterápicos e cirúrgicos9.

 

O interesse no uso dos cogumelos e/ou de seus extratos como suplementos dietéticos vem crescendo significativamente, devido aos seus efeitos antitumorais, anticarcinogênicos, antivirais, anti-inflamatórios, hipoglicemiantes, hipocolesterolêmicos, hipotensivos10, entre outros, podendo ser indicados como coadjuvantes no tratamento das neoplasias malignas8.

 

Considerando-se a relevância do tema, este estudo teve como objetivo principal investigar na literatura os efeitos nutricionais e farmacológicos dos cogumelos Agaricales e outros fungos medicinais na terapia contra o câncer.


METODOLOGIA

 

O presente artigo consiste em uma revisão crítica, sobre o tema, de artigos publicados principalmente em revistas indexadas nas bases de dados Medline, Lilacs, NCBI, Capes, Scielo e Cochrane, com ênfase nos últimos dez anos, nos idiomas inglês, espanhol e português, utilizando-se os termos Agaricales, cogumelos medicinais, câncer e suplementação dietética. Foram selecionados estudos experimentais em animais e ensaios clínicos randomizados, controlados, duplo-cegos, seguidos de tratamento estatístico com significância de P < 0,05.

 

ALTERAÇÕES METABÓLICAS NO CÂNCER

 

O comprometimento do estado nutricional nos pacientes com câncer está intimamente relacionado a índices elevados de morbimortalidade. Além da redução da ingestão proteico-calórica decorrente da diminuição do apetite, alterações do paladar ou comprometimento das funções orgânicas, diversas alterações metabólicas contribuem para o desenvolvimento da caquexia observada nesses pacientes11.

 

As principais alterações metabólicas induzidas pelos tumores avançados incluem intolerância à glicose, redução da secreção de insulina, resistência periférica à insulina, aumento na síntese e no turn over de glicose, maior atividade do ciclo de Cori, aumento do turn over protéico, aumento na síntese hepática de proteínas, aumento no catabolismo proteico muscular, redução plasmática da concentração de aminoácidos ramificados, depleção dos depósitos lipídicos, aumento da lipólise, aumento do turn over de glicerol e ácidos graxos livres, redução da lipogênese e hiperlipidemia11.

 

Os mecanismos gerais relacionados ao processo de carcinogênese envolvem a secreção de citocinas, hormônios reguladores e contrarreguladores. As principais citocinas e hormônios que participam desse processo são fatores de necrose tumoral (TNF-?), interleucina 1 (IL-1), interleucina 2 (IL-2), interleucina 6 (IL-6), interferon gama (ITF-µ), glucagon, cortisol, catecolaminas e hormônio de crescimento11,12. A serotonina, leptina, fator de mobilização lipídica, fator de mobilização proteica também estão envolvidos no processo relacionado à caquexia do câncer através de diversas atividades biológicas12.

 

Além dessas alterações, o próprio tratamento convencional do câncer exibe diversos graus de desnutrição, devido às complicações e/ou efeitos colaterais como diarreia, náuseas, vômitos, mucosites e anorexia, diminuindo significativamente a absorção dos nutrientes, tornando o paciente cada vez mais susceptível às infecções13.

 

PROCESSO DE FORMAÇÃO DO CÂNCER E ATUAÇÃO DOS FATORES DIETÉTICOS NOS ESTÁGIOS DE CARCINOGÊNESE

 

O processo de carcinogênese pode ser dividido em três estágios: iniciação, promoção e progressão. A fase de iniciação envolve a exposição aos carcinógenos e danos nas moléculas de DNA. Na fase de promoção, os promotores tumorais ou mitógenos ativos induzem a expansão clonal das células iniciadas. Na fase de progressão, as células alteradas desenvolvem modificações irreversíveis, resultando na proliferação descontrolada de células cancerosas1,14.

 

A dieta adequada exerce um papel crucial nos estágios de iniciação, promoção e progressão do câncer, podendo prevenir de três a quatro milhões de casos novos de câncer a cada ano7. Determinados fungos medicinais contêm componentes capazes de modular a tumorigênese e carcinogênese nos diferentes estágios da doença e/ou agir em um mesmo estágio através de diferentes mecanismos, exercendo, dessa forma, efeitos benéficos na prevenção e no tratamento do câncer14.

 

PROPRIEDADES TERAPÊUTICAS DOS COGUMELOS AGARICALES E OUTROS FUNGOS MEDICINAIS

 

Os cogumelos eram conhecidos pela humanidade pré-histórica por suas propriedades nutricionais e medicinais, além da toxicidade de algumas espécies. Atualmente, o consumo dos cogumelos continua sendo bastante apreciado em distintas culturas devido às suas características organolépticas15. Existem, no mínimo, 10.000 espécies de cogumelos, sendo 700 comestíveis, 50 a 200 medicinais e 50 venenosas8.

 

A ordem Agaricales, família Agaricaceae, é uma das mais numerosas, importantes e estudadas, devido às suas propriedades farmacológicas, inclusive as do gênero Agaricus, porém também possui algumas espécies tóxicas (amanitinas) e alucinógenas (alcalóides psilocibinas)15.

 

As quatro espécies da ordem Agaricales que mais se destacam na indústria de alimentos, devido ao elevado cultivo, são Agaricus bisporus ou champignon de Paris, Lentinus edodes ou shiitake, Pleurotus ostreatus ou cogumelo ostra e Volvariella volvaceae ou fukurotake15.

 

No Brasil, os cogumelos de interesse comercial são encontrados nas seguintes espécies: Agaricus bisporus, Lentinus edodes, Pleurotus ostreatus, Agaricus blaze16, Agaricus brasiliensis17 e Agaricus sylvaticus, que possuem diferenças no genótipo ou ainda no fenótipo das espécies18.

 

Os cogumelos são considerados alimentos nutracêuticos, apresentando excelente eficácia quando consumidos como suplementos dietéticos e podem ser utilizados como fármacos através da extração dos princípios ativos, assim como produzidos quimicamente pela indústria farmacêutica8,19.

 

Atualmente, entre os compostos derivados dos cogumelos, são comercializados diversos produtos, tais como: Cogumelo do sol® (Agaricus sylvaticus), Agaricus JUN-17® (Agaricus blazei), Lentinan® (Lentinus edodes), Krestin® (Trametes versicolor), Schizophyllan® (Schizophylum communis), Grifron®Maitake (Grifola frondosa), Reishi® (Ganoderma lucidum), entre outros.

 

COMPOSIÇÃO QUÍMICA VERSUS VALOR NUTRITIVO

 

Determinados tipos de cogumelos são indicados para dietas hipoenergéticas ou como coadjuvantes no tratamento de enfermidades especiais como o câncer. Podem ser consumidos sob as formas desidratada e fresca, diferindo apenas no teor hídrico e na apresentação com conservantes15.

 

Quimicamente e nutricionalmente, os cogumelos são considerados alimentos saudáveis20, pois apresentam características imprescindíveis para a execução de suas funções. A tabela 1 ilustra a composição nutricional de algumas espécies de cogumelos21, 22.


  • Tabela 1. Composição nutricional de algumas espécies de cogumelos

Fonte: Adaptado de Breene21 e Borchers et al.22


Os cogumelos possuem teores elevados de carboidratos, fibras, ß-glucanas, ß-proteoglucanas, heteroglicanas, quitina e peptideoglucanas8. Com base em peso seco, os teores glicídicos variam de 51 a 88%, estando presentes nas cadeias ß-glucanas, nas paredes celulares e nas regiões intracitoplasmáticas15.

 

As fibras dietéticas estão contidas nos cogumelos em proporções que variam de 10 a 50% com base em peso seco e possuem ação física desfavorável na absorção de substâncias tóxicas, nocivas e carcinogênicas. Inúmeras pesquisas demonstram que as fibras estão associadas a uma menor incidência de câncer colorretal, uma vez que aceleram a excreção do bolo alimentar por ação mecânica laxativa, diminuindo o tempo de permanência intestinal15.

 

Comparando-se o teor proteico da carne bovina com algumas espécies Agaricales, observa-se que a carne bovina possui em torno de 14,8% de proteína em peso seco, ao passo que os fungos Agaricales apresentam 22,5%15. Além do alto teor proteico, os cogumelos são considerados proteína de alto valor biológico, uma vez que possuem todos os aminoácidos indispensáveis23, além de arginina, glutamina, dentre outros24. Segundo Mdachi et al.25, os diferentes tipos de aminoácidos variam em números de seis a 15, dependendo da espécie, tornando-os comparáveis em termos nutritivos com as carnes, os ovos e o leite.

 

Apesar de apresentarem quantidades reduzidas de gorduras totais, possuem alta porcentagem de ácidos graxos poli-insaturados (PUFA) e baixos teores de ácidos graxos saturados e colesterol22. Comparando-se com os peixes e as aves, os cogumelos apresentam quantidades bem menores de colesterol e gordura saturada. A gordura bruta dos cogumelos é constituída por diversas classes de lipídeos, incluindo os ácidos graxos livres, mono-ditriglicérides, esteróis, terpenóides e fosfolipídeos, destacando-se a lecitina15.

 

Os ácidos graxos poli-insaturados são conhecidos pelo importante papel no desenvolvimento e homeostase normais. Estudos epidemiológicos demonstram que populações com maior ingestão de PUFA possuem redução significativa na incidência e mortalidade por câncer quando comparadas com populações com menor ingestão desses nutrientes26.

 

Os cogumelos possuem quantidades significativas de potássio, cálcio, fósforo, magnésio, ferro, zinco22, sódio23, niacina, tiamina, riboflavina, biotina, ácido ascórbico e provitaminas A e D (ergosterol)22.

 

Metais pesados como arsênico, cádmio, mercúrio14, chumbo e cobre podem estar presentes, principalmente quando não houver adequado cuidado nas áreas de cultivo e com a água utilizada15, assim como substâncias radioativas como 137 Cs14.

 

AÇÃO DAS PRINCIPAIS SUBSTÂNCIAS BIOATIVAS DOS COGUMELOS COM EFEITOS FARMACOLÓGICOS

 

Evidências científicas têm demonstrado que as ß-glucanas exercem atividades antitumorais24; as ß-proteoglucanas, atividades antitumoral19, antiviral27 e antitrombocítica28; a lecitina exerce propriedade antitumoral29, antimutagênica30 e hemaglutinizante3; o ergosterol funciona como anticarcinogênico32 e inibidor da angiogênese33; o ácido linoleico como bactericida; os esteroides atuam contra os tumores19; arginina como anticarcinogênica24 e glutamina com efeitos antioxidantes, entre outros 34.

 

Os cogumelos são capazes de modular a carcinogênese em todos os estágios da doença através de distintos mecanismos14. Porém, os mecanismos de ação dos princípios ativos presentes nos cogumelos Agaricales e em outros fungos medicinais ainda não estão completamente esclarecidos na literatura. Investigadores sugerem que essas ações podem ser atribuídas a componentes específicos destes fungos, destacando-se as glucanas, o ergosterol, as lecitinas e alguns aminoácidos imunomoduladores como a arginina e a glutamina15. A tabela 2 ilustra a atuação dessas substâncias bioativas e o seu provável mecanismo de ação.


ESTUDOS EXPERIMENTAIS COM COGUMELOS AGARICALES E OUTROS FUNGOS MEDICINAIS

 

Estudos experimentais demonstraram que a administração intraperitoneal de grifolana (Grifola frondosa), em ratos com sarcoma 180 (sólido), nas dosagens de 20, 100 e 200 mg, promoveu inibição tumoral superior a 38 e 99%, respectivamente44.

 

Extratos solúveis em água de Agaricus blazei testados em ratos Swiss machos com genotoxicidade induzida por ciclofosfamida nas concentrações de 4oC, 21oC e 60oC promoveram inibição significativa da indução de micronúcleo pela ciclofosfamida na medula espinhal e no sangue periférico dos ratos in vivo, demonstrando que a atividade antimutagênica pode contribuir para o efeito anticarcinogênico45.

 

A administração oral de frações solúveis em água quente do complexo proteico ?(1,6)glucana e ?(1,4)glucana extraídas de Agaricus blazei em ratos com sarcoma 180 resultou em redução tumoral significativa (P < 0,05)46.

 

Outro estudo demonstrou que a administração de 10 mg/kg/dia do polissacarídeo lentinana (Lentinus edodes) e de 200 mg/kg/dia do polissacarídeo Agaricus blazei (ABPS) em ratos Balb fêmeas com carcinoma induzido por 3-metilcolantrene promoveu supressão do citocromo P450s para 66% (lentinana) e para 73% (ABPS)47.

 

  • Tabela 2. Provável mecanismo de ação de algumas substâncias contidas nos cogumelos



Segundo Wasser48, a carcinogênese foi investigada após a indução de carcinógenos em ratos e administração, no grupo controle, de uma dieta contendo 5% de Hypsizygus marmoreus (cogumelo seco). Ao final de 76 semanas, constatou-se que 21 dos 36 ratos não tratados desenvolveram tumor, ao passo que apenas três dos 36 ratos que receberam o tratamento com Hypsizygus marmoreus apresentaram o desenvolvimento tumoral, demonstrando que tanto o mecanismo inibitório quanto a atividade preventiva do câncer por atuação dos cogumelos se deve à imunopotenciação.

 

Em ratos submetidos a injeções subcutâneas de chá de Agaricus sylvaticus preparado a 100oC, observou-se que os números de células NK triplicaram no exsudato peritoneal, fato não observado no grupo controle. Para cada 12 células NK do controle e do Agaricus sylvaticus, 368 averiguou-se, em três horas de incubação, 1% e 40% de inibição de células leucêmicas, respectivamente. Para cada 25 células NK, observou-se inibição de 1% (controle) e de 48% (Agaricus sylvaticus) e para cada 50 células NK houve inibição das células leucêmicas de 1,5% (controle) e 57% (Agaricus sylvaticus)49.

 

Novaes et al.18 avaliaram os efeitos da administração de 50 mg/kg/dia de extratos de Agaricus sylvaticus em ratos Wistar com tumor ascítico Walker 256 e observaram melhora significativa das funções hematológicas e imunológicas. Segundo Sorimachi et al.50, acredita-se que o provável mecanismo de ação consiste na inibição do crescimento tumoral e na estimulação dos sistemas hematológicos e imunológicos.

 

Em um estudo randomizado, duplo-cego e placebocontrolado, 46 ratos machos com tumor Walker 256 e anemia severa foram divididos em dois grupos: placebo (n = 43) e experimental (n = 43). O grupo experimental recebeu uma dieta contendo 50 mg/kg/dia de extratos aquosos de Agaricus sylvaticus por gavagem, duas vezes ao dia, até a morte. O grupo experimental apresentou aumento significativo dos eritrócitos (P = 0,03), hematócrito (P = 0,02), hemoglobina (P = 0,05), leucócitos, linfócitos e neutrófilos (P = 0,03), demonstrando que a suplementação com a Agaricus sylvaticus exerce efeitos benéficos em ratos com tumor Walker 256, principalmente, no sistema hematopoiético51.

 

ENSAIOS CLÍNICOS COM COGUMELOS AGARICALES E OUTROS FUNGOS MEDICINAIS

 

Em um ensaio clínico randomizado, placebocontrolado e duplo-cego, 20 pacientes com câncer colorretal, em fase pós-operatória, tratados com quimioterapia, foram divididos em dois grupos: experimental (n = 10) - suplementado com fungo Agaricus sylvaticus, oralmente, duas vezes ao dia (4,08mg/kg/dia) e placebo (n = 10) - apenas amido, oralmente. Todos os pacientes foram acompanhados por um período de três meses. O grupo suplementado com Agaricus sylvaticus apresentou redução dos níveis de colesterol total de 249,60 ± 119,62 para 206,80 ± 24,46 (P = 0,01), fato não observado no grupo placebo. Os níveis de LDL-c reduziram no grupo experimental, porém esta redução não foi estatisticamente significativa. Níveis de HDL e VLDL não alteraram em ambos os grupos. As taxas de triglicerídeos foram maiores no grupo placebo (P = 0,05) quando comparado com o grupo tratado, demonstrando que a suplementação com Agaricus sylvaticus pode beneficiar esses pacientes através da regulação do metabolismo lipídico 52.

 

Os efeitos de lentinana (Lentinus edodes), durante seis meses, foram avaliados em 33 pacientes em vários estágios de câncer gástrico após gastrectomia. Após uma semana, esses pacientes receberam 2 mg de lentinana, quatro vezes ao dia, por dois ou quatro intervalos semanais. Os resultados obtidos foram aumento superior a 50% da produção basal de IL-1 pelos macrófagos em aproximadamente 70% dos pacientes. Este efeito foi mais significativo nos pacientes que receberam lentinana por quatro semanas quando comparado com aqueles que receberam esse tratamento por apenas duas semanas22.

 

A administração de 3 g/dia de polissacarídeopeptídeo (PSP) extraído do micélio de Coriolus versicolor, por um período de dois meses, em 82 pacientes com carcinoma gástrico tratados com quimioterapia, resultou em aumento significativo (P < 0,05) da atividade das células NK, IL-2, CD4, CD8 quando comparado com o grupo controle que recebeu apenas o tratamento quimioterápico53.

 

Em um ensaio clínico randomizado, placebocontrolado e duplo-cego, 68 pacientes com câncer pulmonar avançado (estadiamentos III e IV) que haviam terminado o tratamento convencional, foram divididos em dois grupos: placebo (n = 34) e experimental (n = 34). O grupo experimental foi suplementado, via oral, com três cápsulas de PSP isolado de Coriolus versicolor (340 mg cada), três vezes ao dia, durante quatro semanas. Observou-se aumento significativo (P < 0,05) nas contagens de leucócitos e neutrófilos, enquanto no grupo placebo essas taxas foram reduzidas. Os níveis de IgG, IgM e o percentual de gordura corpórea aumentaram significativamente (P < 0,05) no grupo experimental, fato não observado no grupo placebo. Embora os pacientes do grupo PSP não tenham apresentado melhora significativa dos sintomas, observou-se que o número de pacientes que abandonaram o estudo, devido à progressão da doença, foi significativamente maior no grupo placebo (n = 8) quando comparado com o grupo tratado (n = 2) (P = 0,04). Nenhuma reação adversa foi atribuída aos medicamentos experimentais. Os resultados sugerem que a ingestão de PSP pode tornar mais lento o processo de deterioração da doença54.

 

Duzentos e sessenta e cinco pacientes com carcinoma gástrico em tratamento cirúrgico e quimioterápico foram randomizados em dois grupos: placebo (tratado apenas com quimioterapia) e experimental (quimioterapia mais 3g/dia de polissacarídeo, PSK, de Coriolus versicolor), durante um período de quatro semanas que foram alternadas com um período de repouso semanal. O grupo tratado com PSK demonstrou aumento significativo (P < 0,05) da sobrevivência por cinco anos e na taxa de sobrevida geral. Em relação aos efeitos adversos, não houve diferença significativa entre os dois grupos55.

 

Em outro estudo, 20 pacientes com leucemia nãolinfocítica aguda tratados com quimioterapia foram assim divididos: grupo experimental (20g de Agaricus blazei, três vezes ao dia; n = 10) e grupo controle (placebo; n = 10). No grupo experimental, 8 pacientes alcançaram completa remissão tumoral, 2 pacientes permaneceram sem remissão e a taxa entre eritrócitos, granulócitos e grandes células nucleares retornaram aos níveis normais num período de sete a oito dias ao final da quimioterapia. No grupo controle, 5 pacientes alcançaram completa remissão, 2 pacientes tiveram remissão parcial e 3 não apresentaram remissão do tumor. Observou-se também aumento significativo nas quantidades de IgM no grupo que recebeu o cogumelo, porém não foram detectadas modificações no grupo controle56.

 

Cinquenta pacientes com câncer gástrico tratados com cirurgia e quimioterapia participaram de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, placebo controlado e receberam, por um período de três meses, 3 g/dia de PSP (Coriolus versicolor) ou placebo. Os resultados obtidos foram aumento significativo (P < 0,05) da atividade das células NK e de CD4/CD8 quando comparado com o grupo controle57.

 

Quinze mulheres com carcinoma mamário em estágio avançado da doença receberam D-fração-ß-glucana e tabletes de maitake extraídos de Grifola frondosa aliados à quimioterapia e 86,7% obtiveram como resultados redução significativa do tamanho tumoral, melhoria nos testes séricos, redução dos vômitos e aumento do apetite58.

 

Em outro estudo clínico randomizado, placebocontrolado e duplo-cego, 22 pacientes foram divididos em dois grupos (placebo, n = 11; suplementado com Agaricus sylvaticus, n = 11). O grupo Agaricus sylvaticus recebeu o cogumelo via oral (4,08mg/kg/dia, duas vezes ao dia, por três meses). O grupo placebo recebeu somente amido. Dos 11 pacientes do grupo placebo, 9% apresentaram constipação, 27%, diarreia e 64%, ausência de alterações após início da suplementação, sendo que, destes, 91% relataram nenhuma modificação na quantidade e consistência fecal e apenas 9% relataram melhoria fecal. Comparando os resultados com o grupo Agaricus, observou-se que 91% dos pacientes deste grupo experimentaram normalização intestinal, através da melhoria tanto da diarréia quanto da constipação e apenas 9% relataram não ter tido alterações na função intestinal. Observou-se que, no grupo placebo, 28% dos pacientes apresentaram tontura, 27%, dores abdominais, 18%, insônia, 9%, fraqueza e 18%, ausência de alterações. Em comparação com o grupo Agaricus, 55% apresentaram melhoria na disposição e 36%, ausência de alterações nas funções intestinais. Os resultados demonstraram que a suplementação com Agaricus sylvaticus promove redução significativa dos efeitos quimioterápicos adversos, normalização das funções intestinais e melhora significativa da qualidade de vida em pacientes com câncer colorretal59.

 

CONCLUSÃO

 

Estudos clínicos e experimentais demonstram que a suplementação dietética com cogumelos Agaricales e outros fungos medicinais exerce efeitos nutricionais, medicinais e farmacológicos imprescindíveis, podendo ser utilizada como coadjuvante na terapia contra o câncer. Os mecanismos de ação das substâncias bioativas presentes nos cogumelos ainda não estão completamente esclarecidos na literatura, mas evidências científicas sugerem que essas substâncias são capazes de modular a carcinogênese nos estágios de iniciação, promoção e progressão, promovendo benefícios aos portadores de diversos tipos de câncer, principalmente através da estimulação do sistema imunológico. Estudos controlados e randomizados adicionais são necessários para elucidar detalhadamente os possíveis efeitos adversos, toxicidade e mecanismo de ação dos principais componentes bioativos presentes nos fungos medicinais.

 

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Fonte: http://www.medicinabiomolecular.com.br/biblioteca/pdfs/Cancer/ca-1567.pdf
Texto por: Renata Costa Fortes e Maria Rita Carvalho Garbi Novaes


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