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Doenças crônicas: como combater esse mal?

21/07/2017 18:14:07

A OMS alerta sobre a epidemia de doenças crônicas que afeta o mundo inteiro. Para enfrentá-la, é preciso aliar esforços governamentais e individuais no combate a causas como má alimentação, sedentarismo, tabaco e consumo excessivo de álcool.


Imagine que, ao longo de um ano, uma série de doenças mata a população inteira da Polônia. No ano seguinte, a mesma epidemia faz desaparecer o povo do Sudão. Parece loucura? Apaguem-se as fronteiras e o que temos é uma realidade dura: o número anual de mortes por doenças crônicas no mundo já chega a 38 milhões, contingente que equivale à população desses países.


Câncer, diabetes, pressão alta, obesidade e doenças no coração, no cérebro e no pulmão são as principais causas de morte por doenças não transmissíveis antes dos 70 anos, segundo um relatório divulgado em 2014 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Provavelmente, você enfrenta ou vai enfrentar uma delas. Afinal, apenas três de cada dez pessoas no mundo vão se safar.


Doenças crônicas foram responsáveis por 68% do total de mortes no mundo em 2012. Do total de 38 milhões, 16 milhões são óbitos considerados evitáveis e prematuros, por afetarem pessoas com menos de 70 anos. Nos países mais pobres, mortes do gênero superaram as provocadas por doenças infecciosas. Por isso, a OMS está de olho nessa epidemia. Para lidar com essa realidade complexa, a organização desmembrou o bicho-papão em diferentes vilões bastante conhecidos e criou nove metas a serem a atingidas por cada país, como reduzir o consumo de álcool, sal e tabaco e melhorar globalmente o sistema de saúde.


Todas essas doenças surgem como resultado da relação entre maus hábitos e as tendências inscritas no seu DNA. Não há o que fazer em relação aos seus genes, afinal eles vieram com você de fábrica. Mas a forma como você age no dia a dia pode ser modificada – além de influenciar a expressão do seu DNA. Má alimentação, sedentarismo, cigarro e álcool estão na base dessa pirâmide torta e problemática.


O DILEMA DA TERCEIRA IDADE


A epidemia de doenças crônicas se consolidou em função da maior expectativa de vida da população, explica Newton Terra, médico diretor do Instituto de Geriatria e Gerontologia do São Lucas da PUCRS. “Antigamente, as pessoas morriam de infecções, como tuberculose ou gastroenterite. Hoje, não, porque conseguimos combatê-las. A partir daí, as doenças crônicas passaram a predominar”, afirma. Com o passar dos anos, nosso sistema imunológico perde a força e nossos órgãos ficam menos eficientes. Agora que vivemos mais, ficamos mais vulneráveis a toda sorte de doenças, incluindo as crônico-degenerativas.


Esse aumento da expectativa de vida se dá por dois motivos. Primeiro, o enriquecimento do mundo como um todo. Felizmente, as pessoas melhoraram de vida e se afastaram da linha da pobreza. Com um padrão de vida mais confortável, fica mais fácil cuidar da própria saúde. Além disso, o acesso a mais informações sobre fatores de risco, facilitado pela popularização da internet, passou a dar uma mão na prevenção de doenças.


Segundo, o planeta vive melhores condições sanitárias: há mais esgoto encanado, maior coleta de lixo e maior cobertura de saúde, o que facilita o acesso a hospitais e postos. E a ciência não ficou para trás: vacinas, medicamentos e exames se tornaram mais eficazes.


Essas mudanças ocorreram no mundo inteiro, não apenas em países já desenvolvidos. O Brasil é um exemplo disso. Nossa população está cada vez mais velha. O número de idosos por aqui deve triplicar até 2050 e atingir 30% da população, segundo o Relatório Mundial de Saúde e Envelhecimento da OMS, publicado em 2015.


Se a princípio o envelhecimento da população brasileira parece uma boa notícia, basta pensar no futuro para se preocupar. A OMS alerta para o fato de que, diferentemente de outros países que envelheceram gradualmente e tiveram décadas para aperfeiçoar serviços essenciais (como sistema de saúde, segurança e educação), o Brasil não deve oferecer uma velhice de completo descanso a seus idosos. A projeção da organização é de que um brasileiro que chegue aos 75 anos viva 65 anos com qualidade de vida — os últimos 10 seriam acompanhados de doenças crônicas e outras limitações.


DIABETES, UM PROBLEMA DAS AMÉRICAS


Uma das doenças que mais cresce em nossa região é o diabetes. O número de pessoas com essa doença triplicou na América Latina desde 1980, de acordo com o Informe Mundial sobre Diabetes da OMS, divulgado em abril deste ano. Uma em cada 12 pessoas vive com o problema nas Américas e essa é a quarta maior causa de morte na região — atrás de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e demências.


O diabetes, marcado pelo excesso de açúcar no sangue por resistência ou ausência de insulina no corpo, contribui para cegueira, hipertensão, colesterol alto, trombose, deterioração dos rins e dos nervos, entre outros problemas.


A fórmula para vencê-lo é conhecida: exercitar-se, preferir a alimentação balanceada aos fast-foods, reduzir a ingestão de carboidratos, açúcares e gorduras, dormir bem, praticar esportes e evitar o estresse e a ansiedade. Aliás, essa é a receita de sucesso contra qualquer doença. Mas enumerar as recomendações médicas não torna a sua realização mais fácil, pelo contrário: esses são os maiores problemas da vida contemporânea, sobretudo nas grandes cidades.


TROQUE O FACEBOOK POR EXERCÍCIO FÍSICO


Encontrar tempo e energia em agendas cada vez mais sobrecarregadas é o grande desafio de quem ainda não conseguiu colocar a atividade física na rotina. O ideal seria dedicar 150 minutos por semana a movimentar o corpo, segundo a OMS. Com uma longa lista de benefícios, o esforço vale cada segundo: exercícios regulares diminuem a resistência à insulina, ajudam no controle das taxas de glicose e de lipídios, reduzem o colesterol ruim (LDL) e elevam o colesterol bom (HDL), relaxam as paredes das artérias e equilibram a pressão arterial, queimam gordura, e estimulam a neurogênese (criação de novos neurônios) e a produção de serotonina (um forte aliado contra a depressão).


Em outras palavras, a prática de esportes é um curinga que serve para qualquer jogo de cartas. Por esse motivo, uma das metas da OMS é aumentar em 10% a atividade física no contexto de cada nação. “Se todo mundo praticasse exercícios, uma imensidade de doenças crônicas poderia ser evitada. Eles estendem e dão mais qualidade à vida, além de melhorar a saúde de quem não tem doença alguma”, afirma Terra, do Instituto de Geriatria e Gerontologia do Hospital São Lucas da PUCRS.


Só que a maioria da população mundial não se exercita suficientemente. O sedentarismo é responsável, anualmente, por 3,2 milhões de mortes no planeta, conforme a OMS. E isso acontece em função de uma série de motivos que você conhece de cor e salteado: excesso de horas no trabalho, tempo perdido no trânsito, insegurança excessiva nas ruas para praticar uma caminhada ou corrida, entre outros.


Ninguém está obrigando você a ser atleta olímpico. Basta reservar 30 minutos diários de segunda a sexta para ir à academia, nadar na piscina ou correr no parque. Parece muito, mas não é. Segundo pesquisa publicada em 2014 pela comScore, que mede audiência digital no mundo inteiro, os brasileiros passam, em média, 30 horas por mês — ou seja, cerca de 1 hora por dia — navegando na internet, sendo que a maior parte desse período é gasta nas redes sociais. Que tal reduzir o tempo de curtidas e aumentar os quilômetros de caminhada?


Quanto a diminuir o consumo de açúcar, a recomendação é evitar alimentos ultraprocessados (como bolachas recheadas, ricas em calorias, açúcares e gorduras trans, e pobres em nutrientes) e tirar da rotina as bebidas super-açucaradas, como refrigerantes e sucos artificiais. Uma lata de Coca-Cola, por exemplo, contém mais açúcar (37 g) do que toda a ingestão diária recomendada (25g). Apesar de todos saberem que refrigerante faz mal, 1,9 bilhão de unidades da bebida são vendidas diariamente no mundo. Ou seja, aparentemente não basta ter informação para as pessoas mudarem de hábitos. É aqui que entra o papel do Estado nessa missão.


A IMPORTÂNCIA DAS POLÍTICAS PÚBLICAS


A prevenção às doenças crônicas não deve recair apenas sobre o indivíduo. O governo precisa dar uma mão e implantar políticas públicas para “tornar a escolha saudável a escolha mais fácil”, nas palavras da diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) das Américas, Clarissa Etienne. Leis que intervenham nessas questões têm um reflexo direto nos hábitos da sociedade.


Argentina, Brasil, Canadá, Chile e Estados Unidos têm incentivado a redução de sal em alimentos industrializados. Tudo porque o excesso de sódio está fortemente associado ao aumento de risco de hipertensão e doenças cardiovasculares. Cerca de 1,7 milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo em função de problemas do coração ligados ao consumo de sal.


Ele está presente em uma infinidade de produtos. Há um motivo lógico: o sódio é um dos melhores e mais baratos conservantes. A indústria alimentícia adora colocá-lo em alimentos congelados, queijo cheddar, carnes processadas, salgadinhos e até mesmo em doces.


Quem mais sofre é a população com menor poder aquisitivo. Alimentos processados são, em geral, mais baratos e práticos do que refeições caseiras. Após nove horas de trabalho e mais algumas no trânsito, colocar uma pizza congelada no forno soa como uma escolha natural. Só que o pênalti vem anos depois, na forma de pressão alta, pedras nos rins (é o rim que excreta o sódio do organismo) e envelhecimento precoce (o sal desidrata as células e deixam seu metabolismo mais lento) e, claro, doenças crônicas.  


Para fugir dessa armadilha, não tem outro jeito: é preciso evitar salgadinhos, enlatados, comidas congeladas, conservas e refrigerantes. Estimativas sugerem que o consumo de sal por indivíduo atualmente é de 10g por dia, enquanto o recomendado pela OMS é de 2,5g a 4g, o equivalente a até quatro sachês. Parece muito, mas uma lasanha congelada de calabresa contém 68% da quantidade de sódio necessária para um único dia.


Além disso, aposte em frutas, legumes e vegetais, prefira alimentos orgânicos aos cultivados com agrotóxicos e evite frituras e carnes gordas. Assim você dribla um dos principais fatores que levam às doenças crônicas. Mas ainda há outros hábitos que merecem atenção, como a ingestão de bebidas alcoólicas.


ÁLCOOL SÓ SE FOR MODERADO


O excesso de consumo de álcool mata 2,5 milhões de pessoas todos os anos. Há uma relação direta entre bebida e morte por doenças cardiovasculares, cânceres e doenças no fígado. Isso sem mencionar o alcoolismo, que além de causar cirrose e pancreatite, afeta família e amigos.


Em 2010, as estimativas eram de que, no mundo, pessoas com mais de 15 anos consumiam 6,2 litros de álcool por ano, em média. O cálculo leva em conta países que consomem bastante (como Rússia) e outros que consomem pouco (países muçulmanos). Normalmente, quanto mais rica é uma nação, mais as pessoas bebem álcool, diz a OMS.


Não há níveis seguros de ingestão de álcool, conforme o Instituto Nacional do Câncer (INCA). O que se sabe é que quem toma diariamente mais de seis doses de bebida com elevado teor de álcool apresenta 10 vezes mais chances de desenvolver câncer bucal — para você ter uma ideia, uma dose tem de 10g a 12g de álcool, o equivalente a uma taça de vinho, uma lata de cerveja ou 30 ml de destilado. Entre alcoólicos fumantes, a probabilidade sobe para 100 vezes.


A OMS sugere formas rápidas e de baixo custo aos governos para diminuir o consumo. Entre elas, aumentar os impostos de bebidas, limitar a sua venda, alertar a população dos malefícios da substância por meio de campanhas e da mídia, além de reduzir a propaganda.


FUMO, UM PROBLEMA DE TODOS


Essas mesmas estratégias também são sugeridas para o fumo, talvez um dos hábitos mais prejudiciais para a saúde. Cerca de 10,5% da população brasileira é fumante, segundo dados de 2014 do Ministério da Saúde. O índice é alto, mas já foi pior. Houve queda de 30,7% no número de fumantes no Brasil nos últimos nove anos.


Faz sentido, já que seguimos algumas recomendações da OMS. Desde 2000, não existem mais propagandas de cigarro na TV e no rádio no Brasil. Além disso, a Lei Federal Antifumo, sancionada em 2011, proíbe o fumo em lugares fechados e a exibição de quaisquer anúncios em pontos de venda.


No mundo, estima-se que 6 milhões de pessoas morram anualmente por causa do tabaco. Junto, elas levam mais 600 mil vítimas do fumo passivo. Quem fuma tem 10 vezes mais chances de ter câncer, segundo o Instituto Brasileiro de Controle do Câncer. Os mais comuns são de pulmão, laringe, pâncreas, bexiga, rins, boca, esôfago, estômago, colo de útero e leucemia. O desafio da OMS é reduzir em 30% a população acima de 15 anos que faz uso de tabaco. Ainda é um desafio. Segundo o Relatório sobre a Epidemia Global de Tabagismo, lançado em 2015, poucos países cobram valores adequados de impostos sobre cigarros e outros produtos de tabaco — uma oportunidade perdida para salvar vidas e gerar receita para serviços de saúde.


CÂNCER, O MEDO MAIOR


O câncer foi a última enfermidade a ser incluída pela OMS no grupo das doenças crônicas. No Brasil, a maior incidência é no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro e em São Paulo, de acordo com Stephen Steffani, oncologista do Hospital do Câncer Mãe de Deus, de Porto Alegre. “Hábitos como tabagismo, alimentação pobre em verduras e legumes, exposição solar em horários inadequados e sedentarismo influenciam na maior incidência”, afirma.


No entanto, ele faz uma ressalva importante: a genética. Se você tem familiares com câncer, há mais chances de você também desenvolver células cancerígenas. Mas a salvação pode estar na epigenética, um ramo da genética que coloca o “destino” em nossas mãos.


No nosso DNA, estão inscritas as instruções que nosso organismo deve seguir ao longo da vida: se seremos altos ou baixos, qual será a cor dos nossos olhos e cabelos e as doenças com maior probabilidade de desenvolvermos. Pois bem, a epigenética mostra que podemos “enganar” essas ordens e forçar nossos genes a não expressar determinadas tendências. “Ela mostra que o ambiente e o estilo de vida podem alterar nossa genética”, explica Steffani.


Na prática, a boa alimentação e a atividade física regular mudam a expressão dos nossos genes. No caso das doenças crônicas, uma mudança de hábitos pode impedir que desenvolvamos alguma enfermidade. “Podemos driblar nossa genética e modificá-la. É como se uma pessoa fosse candidata a uma doença, mas não necessariamente vá desenvolvê-la”, diz o oncologista.


Outras atividades, como yoga e meditação, também estão relacionadas ao combate às doenças crônicas. A teoria mais consistente é de que elas ajudam a eliminar os radicais livres, moléculas que causam danos e mutações nas nossas células. Esses e outros bons hábitos são o caminho para uma vida longa e saudável. 


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