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O pH e a Alimentação.

21/07/2017 17:23:40

Não é o pH do alimento que determina a carga acidificante ou alcalinizante de um alimento, mas o rastro deixado por ele após ser digerido.


Há algumas décadas, pesquisadores têm estudado os efeitos dos resíduos ácidos provocados pela alimentação contemporânea e sugerido formas de neutralizar esse efeito. Bem antes disso, medicinas tradicionais, como a chinesa e a macrobiótica, já mencionavam a importância de uma dieta capaz de neutralizar essa acidez.


Mas a chamada “dieta alcalina”, que seria melhor traduzida como “dieta alcalinizante”, ganhou destaque, mesmo, somente em 2013, quando a modelo, atriz e cantora Victoria Beckham postou mensagem em uma rede social sobre o assunto.


O termo “dieta alcalina” é empregado de forma errada, na opinião da nutricionista clínica Gabriela Paschoal (SP). “Não é o pH do alimento que determina se ele deixará no organismo uma carga acidificante ou alcalinizante”, justifica. O que importa é o rastro que ele deixa após ser digerido. “Portanto, o correto é dizer que uma dieta tem caráter alcalinizante.”


Segundo reportagens publicadas em sites e revistas internacionais, outras estrelas de Hollywood, como as esguias Gwyneth Paltrow, Jennifer Aniston e Kirsten Dunst também teriam aderido à proposta preconizada pela nutricionista britânica Vicki Edgson que, depois, escreveu um livro sobre o tema com uma chef de cozinha, Natasha Corret.


Elas e outros autores têm ajudado a divulgar os benefícios de um estilo de vida que prioriza o que vem da terra e põe limite para o excesso de sal, açúcar, corantes e outros aditivos químicos que tomaram conta dos supermercados.


PRINCÍPIO DOS 70 POR 30


Entusiastas da alimentação natural e orgânica, Vick ensina que, para manter o organismo em equilíbrio – e um pH sanguíneo entre 7,35 e 7,45 – é preciso restringir os alimentos acidificantes para 30% do total consumido diariamente. Isso significa que cereais industrializados, pães e massas com glúten e proteínas de origem animal devem ser ingeridos em proporções menores.


Além disso, deve-se evitar açúcar, café, refrigerante, chá-preto e bebidas alcoólicas ao máximo, pois esses itens deixam um enorme rastro ácido no organismo.


Verduras, legumes e frutas devem ser a base da alimentação, de acordo com a dieta alcalina, combinados com itens neutros ou levemente acidificantes, como as oleaginosas, os laticínios de cabra ou ovelha e cereais como arroz, quinoa e batata-doce.


Certos vegetais também possuem poder acidificante, como certos feijões e o grão-de-bico, mas, por serem nutritivos e proteicos, não precisam ficar de fora da dieta – basta consumi-los com moderação, respeitando a proporção de 30%.


Como foi dito anteriormente, nosso organismo trabalha o tempo todo para manter o pH sanguíneo equilibrado e, assim, faz com que as células armazenem nutrientes em proporções adequadas para realizar suas funções.


Porém, em um meio ácido (pH inferior a 7), esse mecanismo fica comprometido: “As células deixam de liberar toxinas, ficando inflamadas e com maior chance de surgirem problemas como ganho de peso, cansaço e envelhecimento precoce, além de doenças mais graves, como osteoporose e câncer”, relata a nutricionista funcional Mariana Duro.


A nutricionista Alyne Santim (SP), cita outros efeitos comuns de um cardápio rico em alimentos acidificantes: “Podem causar aumento da pressão arterial, gerar dores nas articulações, perda de massa muscular e, em alguns casos, desequilíbrio hormonal”.




ACIDEZ E GASTRITE

Quem sofre de gastrite certamente irá se beneficiar com a dieta alcalina, pelo simples fato de limitar o consumo de café, chá-preto, refrigerantes, molhos prontos, pizza, salgadinhos e frituras de modo geral.


Mas abusar de frutas cítricas pode não ser uma boa ideia para quem já está com a doença instalada. “Em caso de azia e gastrite, um alimento com pH mais ácido, como limão, laranja e abacaxi, pode ferir a mucosa intestinal que já está debilitada. Por isso, é importante o acompanhamento nutricional para melhora da integridade dessa mucosa e, assim, poder voltar a consumir esses alimentos tão importantes”, responde a nutricionista Gabriela.


SAL, SÓ O DO MAR


A maioria das pessoas, no Ocidente, exagera no sal. Médicos e nutricionistas estão sempre divulgando alertas em relação ao assunto, já que o excesso de sódio agrava quadros de hipertensão e retenção de líquidos. Os defensores da dieta alcalina também são contra os exageros, mas são especificamente contra o uso do sal refinado, pois ele possui bem menos minerais que o sal marinho.


As autoras da obra mais famosa sobre a dieta, a nutricionista Vicki recomenda o uso do sal do Himalaia para dar sabor às receitas. “Nele, o sódio está equilibrado com muitos outros nutrientes vitais, contribuindo para aprimorar o equilíbrio do organismo”, ensina o livro. Mas não há por que exagerar – ervas, alho, cebola e outros condimentos devem ser a prioridade.


Natasha também explica que a compulsão por sal pode ser uma resposta do organismo à deficiência de zinco, que ajuda a regular a sensibilidade das papilas gustativas. E esse mineral é poderoso para combater os efeitos do estresse sobre a imunidade.


Portanto, em vez de se entupir de salgadinhos nas fases de maior tensão, experimente alguns bolinhos de arroz integral, quinoa e sementes de abóbora com um pouquinho de sal marinho.


COM OU SEM GLÚTEN?


A maior parte dos defensores da dieta alcalina acredita que o glúten, componente presente no trigo, na cevada e, em menor parte, na aveia, pode ser prejudicial para muita gente, e não apenas para quem sofre de doença celíaca, uma intolerância permanente que geralmente traz sintomas graves, como diarreias constantes.


Sempre que uma pessoa apresenta sintomas desagradáveis após o consumo de determinados alimentos, vale a pena anotá-los num diário e, depois, consultar um profissional de saúde capaz de avaliar se as queixas têm relação com alergias ou intolerâncias alimentares, problemas cada vez mais frequentes na população, mas nem sempre bem diagnosticadas.


Caso você não apresente nenhum problema com o glúten, nem com o trigo, basta apostar nas versões integrais de pães e massas.


Adotar as versões sem glúten de vez em quando, ou substituir o tradicional pãozinho na chapa por variações como a tapioca ou mesmo uma fatia de batata-doce pode ser uma forma de sair da rotina e se alimentar melhor. Quando o organismo funciona de forma saudável, é capaz de dar conta de certos ingredientes que, em pessoas com quadros de inflamação, não podem ser digeridos adequadamente.




BEBIDAS


O verdadeiro champanhe francês é efervescente devido ao processo natural de fermentação e uma forma de virar as garrafas. Já aquelas que vemos em refrigerantes e outras bebidas gaseificadas são sintéticas, ou seja, produzidas industrialmente com substâncias químicas. Por isso, a recomendação é deixá-las de lado.


O café é produzido a partir de um fruto, e muitos estudos têm chamado atenção para os poderes antioxidantes dessa bebida. Mas, para os adeptos da dieta alcalina, o ideal é reduzir bastante o consumo, caso não seja possível excluir.


Já a cafeína presente nos refrigerantes de cola, por exemplo, são ainda piores. A longo prazo, há perda de minerais essenciais e sobrecarga aos rins. Sem contar que a substância também pode deflagrar crises de enxaqueca em pessoas com predisposição. O ideal é trocar essas bebidas por chás de ervas ou água com limão.


Muitos profissionais de saúde e adeptos da medicina integrativa têm apostado nos benefícios da chamada água alcalina. Submetida a um processo de ionização, ela fica com um pH em torno de 9,5.


Várias empresas têm comercializado filtros com esse objetivo ou o próprio produto engarrafado, mas autoridades de saúde afirmam que faltam pesquisas científicas de peso para justificar a escolha.


ACIDEZ, CÂNCER E CRÍTICAS


O bioquímico alemão Otto Heinrich Warburg recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1931 por suas descobertas sobre o câncer. Ele descobriu, por exemplo, que, embora toda célula normal necessite de oxigênio para sobreviver, as células tumorais são uma exceção.


Suprimir o fornecimento de O2 para uma célula, portanto, seria um caminho para transformá-la em câncer. E, segundo o pesquisador, ambientes ácidos repelem o oxigênio, por isso são perfeitos para o desenvolvimento de tumores. A partir desses conceitos, vários outros especialistas se debruçaram sobre esse terna com foco na alimentação e seu impacto no pH.


Mas é importante dizer que algumas ideias que sustentam o “estilo de vida alcalino” geram controvérsias. Para alguns especialistas, tudo não passa de modismo. O médico José Alves Lara Neto, vice-presidente da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia) é um deles: “Uma dieta rica em produtos industrializados, gordura e açúcar sem dúvida leva a um desequilíbrio metabólico, mas não necessariamente a um desequilíbrio do pH”, opina.


O Instituto Americano de Pesquisas sobre o Câncer (AICR, na sigla em inglês) divulgou um texto para alertar que faltam evidências de que a dieta alcalina impeça o desenvolvimento do câncer — por enquanto, o fato só foi comprovado em células isoladas no laboratório, e fazer esse tipo de experimento no corpo humano é virtualmente impossível.


De qualquer forma, todas as entidades que estudam o câncer atualmente recomendam o aumento da ingestão de vegetais e a moderação no consumo de carne vermelha e alimentos processados.


EQUILIBRE SUAS REFEIÇÕES


Veja alguns exemplos de alimentos e sua capacidade de alcalinizar ou acidificar o sangue.


Alguns itens moderadamente acidificantes, como arroz e batata-doce, quando consumidos com os vegetais certos, formam refeições com predomínio alcalino.


••• ACIDIFICANTES

Açúcar, aditivos, bebidas alcoólicas, bebidas gaseificadas, carnes, aves, peixes, porco, crustáceos, cereais matinais industrializados, feijões, gelatina de origem animal, ervilha desidratada, grão-de-bico, laticínios de origem bovina, pizza, frituras, sal refinado, trigo e refrigerantes.


••• MODERADAMENTE ACIDIFICANTES

Amendoim, avelã, castanhas, arroz (branco e integral), aveia, batata-doce, cenoura, queijo de cabra ou ovelha, macadâmia, nozes, óleo de linhaça, semente de gergelim e de girassol, milho, lentilha, painço, quinoa e trigo sarraceno.


••• ALCALINIZANTES

Água e polpa de coco fresco, amaranto, amêndoa, azeite, azeitona, berinjela, cacau, calda de agave, carne de soja, cebola, chá de ervas (não de frutas), chá verde, cogumelo, couve-de-bruxelas, cúrcuma, ervas frescas, gengibre, frutas vermelhas, gergelim, leite de cabra, de soja e de amêndoas, mostarda, pepino, rabanete, sementes de abóbora, sal marinho e tofu.


••• MUITO ALCALINIZANTES

Abóbora, alface, banana, beterraba, broto de alfafa, broto de bambu, damasco, ervilha fresca, figo, goiaba, maçã, mamão, manga, nabo, nectarina, pera, pêssego, pimenta, quiabo, repolho, salsão, vagem e vinagre de maçã.


••• EXTREMAMENTE ALCALINIZANTES

Abacate, abacaxi, agrião, alcachofra, algas marinhas, alho-poró, aspargo, brócolis, couve, couve-flor, erva-doce, espinafre, limão, melão, toranja, sucos verdes, umeboshi, uva (inclusive a passa).


EQUILIBRE SUAS REFEIÇÕES


Veja alguns exemplos de alimentos e sua capacidade de alcalinizar ou acidificar o sangue. Alguns itens moderadamente acidificantes, como arroz e batata-doce, quando consumidos com os vegetais certos, formam refeições com predomínio alcalino.